2 de maio de 2007

Claquete, ação! (Estrelando: As Horas)


"Não se pode ter paz fugindo da vida" (Virgínia Woolf)
Adaptado do livro homôniomo de Michael
Cunningham, "As Horas" é uma exceção à regra de que adaptações nunca chegarão aos pés de suas origens. Em todo o filme tive a sensação de já ter presenciado aquelas cenas, com as mesmas cores, com o mesmo cheiro e com a mesma dor no coração.
Dirigido por
Stephen Daldry, e estrelado pelo trio de talentos Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore, o filme é daqueles que devem ser assistidos ao menos uma vez ao ano.
Tendo como base o livro
Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, o filme narra um dia na vida de três mulheres de períodos diferentes, mas que têm suas vidas entrelaçadas.
Em 1923 vive Virgínia Woolf (Nicole Kidman), uma escritora que tem sua vida atormentada pela insanidade. Dona de uma mente maravilhosa e de uma personalidade forte, Virgínia se via limitada pelo seu maior bem, sua própria alma. Sua relação com Leonard(seu marido e companheiro) era de doação,de ambos.Tanta e tamanha que Virgínia decide deixar sua vida esvair-se para que a de Leonard possa então respirar. Não há outra palavra senão "perfeita" para adjetivar a atuação de Nicole Kidman. Em todas as vezes em que ela apareceu na tela me parecia estar vendo a própria Virgínia. Não foi à toa que lhe deram com honra o Oscar de melhor atriz. A caracterização, a voz, os olhos, tudo nela respiravam a insanidade apaixonante que só Virgínia Woolf seria capaz de transmitir.
Em 1949 vive Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa grávida com um marido exemplar. Laura é um exemplo da luta contra aquilo que não se deseja mais. Ela transpira suas exitações. Ela quer o perfeito tanto quanto o rejeita. Laura Brown é uma mulher que decide viver, mas que prefere matar o que não lhe deixa escolhas.
Julianne Moore está absurdamente bela. Não há como passar ileso por aquele rosto, sem ter a vontade de olhá-lo por quase toda a eternidade.
Nos dias atuais vive Clarissa Vaughn (Meryl Streep), uma editora de livros que está ocupada com a festa que dará em comemoração ao prêmio ganho por seu melhor amigo (Richard). Clarissa é uma personalidade perturbada, mas que tenta esconder com sorrisos tudo aquilo que sua alma já não aguenta mais carregar. Como diria Richard: "Sempre dando festas para encobrir o silêncio". Meryl Streep está perfeita, como só ela consegue ser. Sua atuação é tão real, tão significativa, que chega a transpôr a tela e vir direto para nosso lado, trazendo consigo nossas dúvidas e imperfeições.
As Horas é a narrativa de um dia nosso. Um dia em que temos que fazer escolhas. Um dia em que as escolhas se fazem por nós.

Virgínia não é apenas uma mente atormentada, é todo o desespero de uma mulher que já não pode controlar a si mesma. É a luta por manter-se salva de si mesma.É a personificação de uma vida em que não se sabe o que se é, mas o que se gostaria de ser. É o desejo de ir para bem longe de onde se está, mesmo sabendo que talvez isso não seja o ideal.

Laura não é apenas uma esposa ideal. É a alegoria de uma mulher que sabe exatamente o que é, mas não sabe se isto é o melhor. Que luta contra si mesma. Que volta do meio do caminho e entende que o melhor é estar viva, e que mesmo que as escolhas não sejam boas para todo o mundo, é melhor que sejam feitas.
Clarissa não é apenas uma mulher frívola. É um vazio constante. É a dor de viver no passado. É o escuro de não querer enxergar que o presente é aquilo que a faz viva. É a personificação de muitas pessoas que fogem de si mesmas, e tentam resolver com flores a sua própria ausência.

Essas três mulheres não são apenas o perfil de como a sociedade pode massacrar uma alma. São a representação de como essa alma pode agir diante da sociedade.
Diante de nossa verdadeira realidade no espelho podemos sair para comprar flores, nos atirar nas águas ou deitar e dormir. O que importa não é se conseguimos, mas que o fizemos. Afinal, a cada segundo em que o tempo escorre belo e grotesco de nossas mãos precisamos fazer uma escolha.Que irá definir se encontraremos a paz ou deixaremos com que ela se vá.
Escolha assistir o filme.E fique como eu, deitado, enquanto os créditos passam, olhando para si mesmo e ouvindo ao fundo a sinfonia de Strauss. Enquanto isso não pense nas escolhas que já foram feitas, tampouco nas que você ainda tem por fazer. Deixe apenas que elas fiquem ao seu lado, esperando que sua hora chegue. Afinal, temos todas as horas...

Ps:especialmente destilado para ThonThon.



Um comentário:

Luana disse...

Parece bom, muito bom... E histórias envolvendo mulheres, envolvendo conflitos internos e tals. Tentarei assistir, bjo
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