4 de maio de 2007

Jukebox (The Cleaners)


Ao ouvir o primeiro single da banda,"To grow old", levei um soco no estômago!Peraí!Isso é MESMO uma banda brasileira?!
Formada em 2005 no interior de São Paulo, The Cleaners é uma banda sem frescuras.Com influência de bandas como Snow Patrol e Superchunk, a banda consegue fazer o que visceralmente pode-se chamar de alternativo.
Com músicas compostas em inglês (logo saí o EP que será lançado no Dynamite Pub, em Sampa), que falam sobre o cotidiano, e principalmente fases da vida (como a própria To grow old), o grupo consegue mostrar de que nem só de português vive o alternativo brasileiro.
O vocal de Rodrigo é muito bem articulado, com um timbre que lembra os vocais europeus. Melódico, e me arriscaria a dizer até "doce", porque chega aos meus ouvidos sem agredir, sem causar "reações adversas".E por falar em composições em inglês, ele cumpre muitíssimo bem sua tarefa!Não é daqueles que cantam em "embromation", mas sim em um inglês limpo (bem clean =]) e bem cantado.
O baixo (Fernando) é forte e bem marcado. As guitarras (Rodrigo e Joseph) tem a distorção certa na hora certa. E a bateria (Duka) é muito bem cadenciada e tem uns contratempos muito bons!
Já cheguei a ouvir "To grow old" cinco vezes seguidas sem enjoar!É uma melodia gostosa, daquelas pra se escutar sentado admirando o pôr-do-sol. E não é menos róque enrou por isso!
Se eu tivesse que dar um exemplo do "novo alternativo" agora, escolheria The Cleaners.E olha que só escutei uma música hein!
Eles conseguem a façanha de fazer um som limpinho, sem milhares de distorções ou vocais incompreensíveis num momento em que a música está cada vez menos música.
Taí o MySpace dos caras:
http://www.myspace.com/thecleanerstheband
Enjoy it!Porque vale a pena!

2 de maio de 2007

Claquete, ação! (Estrelando: As Horas)


"Não se pode ter paz fugindo da vida" (Virgínia Woolf)
Adaptado do livro homôniomo de Michael
Cunningham, "As Horas" é uma exceção à regra de que adaptações nunca chegarão aos pés de suas origens. Em todo o filme tive a sensação de já ter presenciado aquelas cenas, com as mesmas cores, com o mesmo cheiro e com a mesma dor no coração.
Dirigido por
Stephen Daldry, e estrelado pelo trio de talentos Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore, o filme é daqueles que devem ser assistidos ao menos uma vez ao ano.
Tendo como base o livro
Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, o filme narra um dia na vida de três mulheres de períodos diferentes, mas que têm suas vidas entrelaçadas.
Em 1923 vive Virgínia Woolf (Nicole Kidman), uma escritora que tem sua vida atormentada pela insanidade. Dona de uma mente maravilhosa e de uma personalidade forte, Virgínia se via limitada pelo seu maior bem, sua própria alma. Sua relação com Leonard(seu marido e companheiro) era de doação,de ambos.Tanta e tamanha que Virgínia decide deixar sua vida esvair-se para que a de Leonard possa então respirar. Não há outra palavra senão "perfeita" para adjetivar a atuação de Nicole Kidman. Em todas as vezes em que ela apareceu na tela me parecia estar vendo a própria Virgínia. Não foi à toa que lhe deram com honra o Oscar de melhor atriz. A caracterização, a voz, os olhos, tudo nela respiravam a insanidade apaixonante que só Virgínia Woolf seria capaz de transmitir.
Em 1949 vive Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa grávida com um marido exemplar. Laura é um exemplo da luta contra aquilo que não se deseja mais. Ela transpira suas exitações. Ela quer o perfeito tanto quanto o rejeita. Laura Brown é uma mulher que decide viver, mas que prefere matar o que não lhe deixa escolhas.
Julianne Moore está absurdamente bela. Não há como passar ileso por aquele rosto, sem ter a vontade de olhá-lo por quase toda a eternidade.
Nos dias atuais vive Clarissa Vaughn (Meryl Streep), uma editora de livros que está ocupada com a festa que dará em comemoração ao prêmio ganho por seu melhor amigo (Richard). Clarissa é uma personalidade perturbada, mas que tenta esconder com sorrisos tudo aquilo que sua alma já não aguenta mais carregar. Como diria Richard: "Sempre dando festas para encobrir o silêncio". Meryl Streep está perfeita, como só ela consegue ser. Sua atuação é tão real, tão significativa, que chega a transpôr a tela e vir direto para nosso lado, trazendo consigo nossas dúvidas e imperfeições.
As Horas é a narrativa de um dia nosso. Um dia em que temos que fazer escolhas. Um dia em que as escolhas se fazem por nós.

Virgínia não é apenas uma mente atormentada, é todo o desespero de uma mulher que já não pode controlar a si mesma. É a luta por manter-se salva de si mesma.É a personificação de uma vida em que não se sabe o que se é, mas o que se gostaria de ser. É o desejo de ir para bem longe de onde se está, mesmo sabendo que talvez isso não seja o ideal.

Laura não é apenas uma esposa ideal. É a alegoria de uma mulher que sabe exatamente o que é, mas não sabe se isto é o melhor. Que luta contra si mesma. Que volta do meio do caminho e entende que o melhor é estar viva, e que mesmo que as escolhas não sejam boas para todo o mundo, é melhor que sejam feitas.
Clarissa não é apenas uma mulher frívola. É um vazio constante. É a dor de viver no passado. É o escuro de não querer enxergar que o presente é aquilo que a faz viva. É a personificação de muitas pessoas que fogem de si mesmas, e tentam resolver com flores a sua própria ausência.

Essas três mulheres não são apenas o perfil de como a sociedade pode massacrar uma alma. São a representação de como essa alma pode agir diante da sociedade.
Diante de nossa verdadeira realidade no espelho podemos sair para comprar flores, nos atirar nas águas ou deitar e dormir. O que importa não é se conseguimos, mas que o fizemos. Afinal, a cada segundo em que o tempo escorre belo e grotesco de nossas mãos precisamos fazer uma escolha.Que irá definir se encontraremos a paz ou deixaremos com que ela se vá.
Escolha assistir o filme.E fique como eu, deitado, enquanto os créditos passam, olhando para si mesmo e ouvindo ao fundo a sinfonia de Strauss. Enquanto isso não pense nas escolhas que já foram feitas, tampouco nas que você ainda tem por fazer. Deixe apenas que elas fiquem ao seu lado, esperando que sua hora chegue. Afinal, temos todas as horas...

Ps:especialmente destilado para ThonThon.



Escrivinhações de Baú (caixa)

"Uma caixa.Um espaço vazio que possui tampa e no qual você pode guardar tudo. Nele talvez caibam todos os seus sonhos.Seus desejos.Suas frustrações.Suas palavras.Seus medos. Suas misérias.Seus sucessos.Suas lágrimas.Sua realidade. Seu suor.Suas noites não dormidas.Seus sonos.Seus muitos pares de sapatos.Seus espelhos.Seu coração.Sua alma.
A tal caixa dei o nome de Vida."
Para muitos a vida é apenas uma palavra, que passa pela janela.Que pega carona nos ônibus lotados de manhã.Que lhe lembra de que há contas a pagar.Para tantos outros talvez ela seja um estado de espírito.Ou então um estado de aceitação.
É necessário se estar vivo para aprender?Ou é necessário que ela deixe de existir,em algum ponto,em algum momento, para que aprendamos?
"Minha vida é uma caixa.Escolhi assim, afinal, a cada segundo em que o tempo escorre belo e grotesco de minhas mãos, tenho que fazer uma escolha."
Será que a vida é uma escolha?Será que preciso mesmo escolher estar viva?Ou isto apenas me acontece ao abrir os olhos pela manhã e ver que tudo continua ali, do mesmo jeito que deixei?Ou a vida é apenas uma ilusão, que nos contaram no meio das muitas histórias de dormir?
"Minha caixa é grande.Algumas partes coloridas,vivas.Outras em preto e branco mesmo."
Viver é apenas uma doação?Vivemos por quem?Para nós?Para outros?Para saudar o universo que espera que continuemos sua desevolução?
A partir de qual ínfimo momento deixamos a palavra de lado e passamos a conjugar o verbo?A vida fica ali quietinha, sentada de castigo, até que empunhemos o tal do "viver" e saiamos porta a fora com o pulmão cheio de ar para gritar aos quatro ventos que não se está além.
"Acho que hoje percebi um furo em minha caixa.Não sei o que pode passar por ali.Para fora,talvez eu perca alguma coisa.Para dentro, talvez eu ganhe o que nunca tive."
Caixas.Palavras.Verbos.Nada disso existiria se eu não tivesse aberto meus olhos hoje pela manhã e sentido o ar entrar.Talvez se ontem eu tivesse decidido não dormir por apenas 8 horas,mas por mais tempo do que qualquer maquininha possa contar.
Mas não há que se encontrar paz fora da vida.Mesmo que seja necessária uma escolha.Que ela seja a de continuar guardando tudo em uma caixa.
By Patrícia Pirota