4 de fevereiro de 2007

Como diria... (Machado de Assis)

"Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra, por que, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e do Epicuro. Enquanto esta idéia se trabalhava no famoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito, e sentia que meu coração não tardaria a descalçar as botas também. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e oncoercível momento de gozo, quw sucede a uma dor pungente, a uma preocupação. a um incômodo...Daqui eu inferi que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoariam a felicidade terrestre. E em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas."
(In: Memórias Póstumas de Brás Cubas - Cap. XXXVI)

Um comentário:

Luana disse...

Comecei a ler ontem! Mutio bom! Tou louca pra ler Dom Casmurro tb... E algo de Clarice Lispector [como é mesmo aquela frase? Ah, lembrei: 'sou cada pedaço infernal de mim'], e por aí vai... Ler é muito bom! É uma alimentação da alma.
Bjao
*