8 de fevereiro de 2007

Como diria... (Caio Fernando Abreu)

"28 de janeiro
Hoje é dia de mudar de casa, de rua, de vida. As malas sufocam os corredores. Pelo chão restam plumas amassadas, restos de purpurina, frangalhos de echarpes indianas roubadas, pontas de cigarro (Players Number Six, o mais barato). Chico toca violão e canta London,London: no, nowhere to go. Poucos ainda sorriem e olham nos olhos.
Hoje é dia, mais uma vez, de mudar de casa e de vida. Os olhos buscam signos, avisos, o coração resiste (até quando?) e o rosto se banha de estrelas dormidas de ontem, estrelas vagabundas encontradas pelas latas de lixo abundantes de London, London, Babylon city. Alguém pergunta: "O que é que se diz quando se está precisando morrer?". Eu não digo nada. É a minha resposta.Sento no chão e contemplo os estragos de Sodoma e Gomorra.
Amanhã é dia de nascer de novo.Para outra morte. Hoje é dia de esperar que o verde deste quase fim de inverno aqueça os parques gelados, as ruas vazias.Hoje é dia de não tentar compreender absolutamente nada, não lançar âncoras para o futuro.Estamos encalhados sobre estas malas e tapetes com nossos vinte anos de amor desperdiçado, longe do país que não nos quis. Mas amanhã será quem sabe o acerto de contas e Jesuzinho nos pagará todas as dívidas?Só que já não sei mais se acredito nele.
(...)
Só espero, não penso nada. Tento me concentrar numa daquelas antigas sensações como alegria ou fé ou esperança.Mas só fico aqui parado, sem sentir nada, sem pedir nada, sem querer nada.
(...)
Meu coração vai batendo devagar como uma borboleta suja sobre este jardim de trapos esgarçados em cujas malhas se prendem e se perdem os restos coloridos da vida que se leva.Vida?Bem, seja lá o que for isto que nós temos..."

(In: Lixo e Purpurina - Conto do livro Ovelhas Negras)

Nenhum comentário: