24 de novembro de 2006

Poemeto - Mel e desilusões

Mel e desilusões

Todos estes séculos de silêncio
engolem meus dizeres
com mel e desilusões.
Minhas mãos tentam compôr
inúmeras canções
sobre meus arranha-céus,
que durante sua cinzenta existência,
brincam de tapar meu sol.
No processo de brincamento
de borboletas,
aprendi a fazer
bolinhas de sorriso,
enquanto pezinhos descalços
tentam a sorte
com paralelepipedos coloridos
num vermelho estacionado.
Então o verde ressurge
e os transeuntes ignoram as idéias
sentadas na calçada
pedindo um mínimo
de suspiro.
Patrícia Pirota jul/03

9 de novembro de 2006

Poemeto - Sentidos

Enquanto caminho na chuva
Penso nos olhos vazios
nos ombros cansados
na correria do mundo
Vejo o sorriso amarelo
a calçada suja
o vidro quebrado
Sinto o nó na garganta
o soco no estômago
a queda da ilusão
Ouço a voz da angústia
o lamúrio do tempo
o tilintar da tristeza
Toco a poeira da solidão
a cicatriz da cultura
as mãos do poder
Tudo no embalo dos sonhos
que não mais carrego
mas que me levam nas asas.

Patrícia Pirota nov./2006

3 de novembro de 2006

Sétima Arte (Estrelando:De olhos bem fechados)

DE OLHOS BEM FECHADOS (Direção e roteiro de Mr. Stanley Kubrick)

Seria redundante dizer que o nome de Kubrick já é o suficiente para que você se levante da cadeira e vá locar "De olhos bem fechados", afinal, responsável pelos históricos "Laranja Mecânica" e "2001.Uma odisséia no espaço", Kubrick é um dos diretores mais elogiados tanto pela crítica(que é uma feroz planta carnívora) quanto pelo público.

Mas há quem diga que não gosta de Kubrick.Há cidadãos que têm a infâmia de dizer que DORMEM em filmes do Kubrick! Tudo bem, relevemos, pois se há pessoas neste mundo capazes de achar que "O Chamado" tem um ótimo roteiro, não há como duvidar de muitas coisas nesta vida.

De olhos bem fechados é o mais recente filme de Kubrick, que ficou por muito tempo longe do mundo cinematográfico. O filme levou 3 anos entre produção e filmagens.Um período de "fermentação" das idéias.

Bill Harford (Tom Cruise) é casado Alice (Nicole Kidman). Ambos formam um casal perfeito.Lindos.Bem resolvidos.Inteligentes.Enfim,um típico "sonho americano".
Numa noite em que ambos estão divagando sobre suas vidas, após voltarem de uma festa em que, por muitas vezes não conseguimos identificar completamente o que é imaginação do que é fato, Alice conta a Bill que já sentira desejo por outro homem, um desejo tão forte que a teria feito deixar toda sua vida para trás.Como uma confissão.Mas não para expurgar-lhe a alma, pois ela não sentia culpa.Apenas uma confissão.Bill, que então demonstra a tão velada "moral" humana fica atordoado.

Aqui abro um parênteses para falar da atuação de Nicole Kidman.Todos sabemos o quanto sua beleza enche a tela. Mas no corpo de Alice ela se torna dionisiacamente irresistível.Seus gestos, sua voz, seus olhos.Tudo induz a um mundo de sonhos dentro de uma realidade multicolor.

Tom Cruise também está ótimo.Talvez não seja seu melhor papel.Mas suas expressões são exatamente as que eu esperava de Bill.Um homem frio e passional.Duo.Ambíguo.

O roteiro do filme peca um pouco por seus excessos.Talvez seja por este ponto que muitos tenham criticado "De olhos bem fechados".Muitas cenas são longas, quase que criando uma desconexão.Enquanto outras são tão rápidas quanto um piscar de olhos.

A fotografia é fabulosa.Reflete fielmente todas as transformações de sentimentos vividas pelo personagem. Vão desde o cinza característico de Londres, até os tons quentes vindos como um sopro do oriente.

Uma das cenas mais surpreendentes e belas do filme é a cena em que Bill entra em uma festa "restrita" de uma determinada ordem secreta(aqui uma alegoria aos ritos pagãos é reproduzida). Muitos diriam que é apenas sexo.Corpos nus.Desejo carnal.Mas o que realmente importa nesse contexto é a falsa transgressão de valores.
Bill, através da participação em um culto transgressor, quer se "vingar" dos seus sentimentos bobos.Da sua rotina.Do café da manhã e dos jornais jogados no quintal.
Em muitos momentos do filme pode-se cogitar a idéia de teorias psicológicas disfarçadas.Mas esse não é o melhor caminho para se sentir a trajetória dos desejos.

Uma tênue linha entre a realidade e a fantasia é substanciada no filme.E nessa linha nos perdemos.Tanto quanto em nossas vidas normais.Há dias em que precisamos olhar bem fundo nos olhos do espelho para sabermos que estamos de fato acordados.E há dias em que ao acordar, pedimos ao deus do sono que nos devolva nossos sonhos.

Um filme surreal.Talvez essa seja uma boa classificação.
Onde sonhos, desejos, irreal, abstrato, carne dilacerada, suspiros, coexistam igualmente sem necessariamente se excluirem.

Assista.Mas não vá com os olhos fechados de preconceitos ou expectativas demais.Deixe para fechá-los na volta, enquanto ainda tenta reproduzir as cenas de insanidade que foram projetadas em sua mente ao saborear o filme.

Informações técnicas e fotos:
http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/de-olhos-bem-fechados/de-olhos-bem-fechados.htm

2 de novembro de 2006

Sétima Arte (Estrelando: V de Vingança)

V DE VINGANÇA

"O povo não deve temer seu governo, o governo deve temer seu povo" (V)

Baseado no HQ homônimo escrito por Alan Moore e ilustrado por David Lloyd, V de Vingança conta com o roteiro dos irmãos Wachowski e a direção de James McTeigue.
Talvez o nome dos irmãos Wachowski seria suficiente para alguns alternativos não cogitarem a idéia de ver o filme.Ou então o fato de entre os atores estarem as estrelas Natalie Portman e Hugo Weving. Ou mesmo pelo orçamento do filme ter girado em torno dos 50 milhões de dólares.Ou por ser um filme classificado como ficção científica.
Eu digo que isso seria um verdadeiro sacrilégio!

Apesar de ser um filme aparentemente hollywoodiano, V de Vingança é um belo sopro de (in)sanidade ideológica neste nosso cinema tão "mulherbonitasombraeáguafresca".

Seu enredo é situado em um passado futurista, onde o governo fascista conquistou o poder da Inglaterra após o fim de uma guerra nuclear. O filme se inicia com V(Hugo Weaving) salvando Evey Hammond (Natalie Portman) do ataque dos policiais responsáveis pela ronda noturna da cidade, que vive então um regime totalitarista. A partir daí Evey acaba por se tornar cúmplice de V, que a vê como uma possível comparsa para o seu grande plano contra o governo e em nome da liberdade.

V é um homem escondido por trás da máscara de Guy Fawkes(soldado inglês executado na forca por traição devido a sua participação na Conspiração da Pólvora de 1606) que se proclama anarquista.É um personagem carismático, que usa frases de Shakespeare e demasiadas aliterações para compôr suas falas.Mas acima de tudo, V é a personificação de um ideal.
Quando é perguntada sobre quem é V, Evey diz: "Ele era Edmond Dante. Era meu pai, minha mãe, meu irmão, meu amigo.Era você... e era eu. E era cada um de nós."
V não pode ser encarado apenas como um terrorista. Tampouco como um mero ator a busca de uma grande platéia. V é a proclamação viva da liberdade.

Natalie Portman está irreconhecível no papel de Evey. Ela consegue incorporar todos os sentimentos, todas as expressões, toda a mudança da personagem. E mesmo com o cabelo raspado continua linda.Não com a beleza da Princesa Léa, mas com a beleza que Evey tem na alma.A beleza de uma mulher que encontra seu próprio caminho. Que consegue fazer com que o passado doloroso seja responsável pelo presente de luta, força e altruísmo.

Não há como não dizer que é um filme dos irmãos Wachowski. As cenas de luta,embora poucas, são tal qual Matrix.Coreografadas.Pontuais.Belas.Assim como parte do cenário, que reflete o cinza da alma dos moradores londrinos.

Ao conseguir se enfiltrar na emissora de tv, V espalha por Londres todo o sentimento de, ao mesmo tempo, revolta e ânsia de liberdade. As pessoas passam a encará-lo como um ídolo, tanto pelo seu carisma, como por ele conseguir representar todo o desejo de expresssão que lhes fora tomado pelo governo.

A trilha sonora do filme cai como uma luva, assim como as cores usadas na composição dos personagens e das cenas, tão vermelhas como as rosas da vingança.

"Os artistas mentem para falar a verdade.Os politicos para encobrí-la."(V)
V lembra ao povo de que eles não precisam ficar calados,reclusos em sua casa enquanto o governo toma conta de suas vidas.Relembra-os de quantos morreram para que os homens que estão no poder apenas dissessem a "verdade" que lhes conviesse.

Nesses nossos tempos, em que, veladamente, a política mundial apenas "dá o peixe ao invés de ensinar a pescar", no intuito de continuar impondo ao povo suas falsas promessas e premissas, V seria muito bem vindo.
Em uma das cenas do filme há uma ótima alusão ao ataque de 11 de setembro.Há quem diga que isso apenas incite e dê aprovação ao terrorismo deliberado, mas não posso acreditar que alguém que realmente tenha sorvido o propósito do filme acredite que ele faz apologia à violência.

Podemos considerar V de Vingança como uma bela alegoria aos nossos desejos mais secretos de guerra.Não apenas a guerra entre homens, em que as armas são substitutas de cérebros.Mas a guerra que travamos todos os dias contra a falta de vontade.Contra a falta de amor.Contra a falta de consciência.Contra a falta de voz.Contra a vontade de abandonar o barco.Contra a miséria.Contra a hipocrisia.Contra a ignorância.Contra o contra.

"Idéias são a prova de balas".(V)
Sendo assim, não há armamento no mundo capaz de derrotar uma idéia.Desde a idéia insana de se tornar astronauta até a, considerada tão impossível, de construir uma mundo melhor.

Assista, e sinta-se à vontade para retirar suas máscaras e despir-se de seus medos, para então, por fim a "vendetta" contra o mundo não-ficctício que insiste em lhe mostrar a língua todos os dias de manhã.


Cada pedaco de mim...

Cada pedaço de mim
sabe o inferno que é
ser sol em noites de chuva
ser cor nos cinzas dos edifícios
ser luz na escuridão das manhãs
Cada todo de ti
sabe a delícia que é
ser flor nas asas do vento
ser cristal nos olhos das fadas
ser azul no fundo do mar
Cada suspiro de nós
sabe a angústia que é
ser só na multidão dos dias
ser muito na pobreza da esquina
ser ninguém na roda da vida
Enquanto isso
os relógios se vão e vêem
aqueles que sabem o que é
apenas ser na ausência do nada.
Patrícia Pirota nov./2006