18 de outubro de 2006

Sétima Arte (Estrelando: Brilho eterno de uma mente sem lembranças)


Brilho eterno de uma mente sem lembranças

"Muitos caras acham que eu sou um conceito, ou que eu os completo, ou que vou dar vida a eles. Mas sou só uma garota ferrada procurando pela minha paz de espírito". (Clementine em diálogo com Joel)

Premiado com o oscar de melhor roteiro original, Charlie Kaufman já seria um ótimo e singular motivo para assistir o filme. Responsável pelos roteiros de filmes inteligentes e controversos como "Adaptação" e "Quero ser John Malcovick", Kaufman é um roterista fora dos padrões.Muitos diriam insano. Outros(aqueles que sempre preferem ver finais felizes e a sequência nascer-crescer-morrer) exclamariam o velho e trágico "sem pé nem cabeça". Eu prefiro deixar como opinião as retiscências que ele sempre deixa em minha mente.
Um dos melhores roteiristas da última geração, poderíamos dizer que seu maior e melhor parque de diversão é a mente humana. Em "Quero ser John Malcovick", Charlie brincou com a teoria de "eu é um outro", há muito profetizada por Rimbaud. Em "Brilho Eterno" ele joga com o poder que nossas lembranças têm de comandar e transformar nossa vida.

Em um enredo não-linear, Clementine(Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey)são um casal típico. A já conhecida lenda dos "opostos que se atraem".
Mas em seu atrair, o casal acabou por distanciar-se a tal ponto que apenas uma limpeza geral no cérebro seria capaz de apagar "as pedras no caminho" que ambos deixaram um para o outro.
E é exatamente isso que a impulsiva Clementine resolve fazer. Ela procura o Dr. Howard Mierzwiak(Tom Wilkinson), cuja clínica é responsável por "apagar" as lembranças que já não são mais agradáveis e queridas.
Preciso abrir aqui um espaço para falar da atuação de Kate Winslet. Não é só o fato de ela ter sido indicada ao prêmio de melhor atriz que faz com que seja necessário abrir um parênteses para ela. Mas o fato de ela ter superado todos os meus preconceitos. Sim!Eu não gosto dela enquanto atriz, mas em "Brilho eterno" fui obrigada a aceitar que não haveria outra pessoa tão boa quanto para o papel. Winslet, de fato, assumiu a personalidade de Clementine. Uma garota tão cheia de vida, tão cheia de cor (afinal a personagem muda a cor do cabelo 4 vezes!), tão cheia de promessas, mas que no fundo é apenas mais uma alma querendo encontrar outra que a complete sem a excluir.
O brilho nos olhos de Winslet é o mesmo que podemos ver em tantas outras mulheres a busca de todo mundo e de si mesmas ao mesmo tempo.Uma lembrança nas multidões.

Por falar em surpresas, Jim Carrey está irreconhecível!
Sou fadada a admitir que ele também varreu meu preconceito com relação a ele pra debaixo do tapete. Nunca imaginei que ele pudesse fazer um papel tão sóbrio. Tão real. Tão...pouco exagerado!
Joel é um cara normal, até demais. Tão sem surpresas, sem arroubos de emoções, que é difícil imaginar que Carrey conseguiria fazer com que isso fosse realmente real. Mas é.Tão insanamente como apenas um roteiro de Kaufman poderia conceber.

Depois de descobrir que Clementine o havia "deletado" de suas memórias, Joel decidi que fará o mesmo, afinal, porque diabos apenas ela teria o prazer da consciência tranquila ao dormir?!
E nesse mundo de ilusões, Stan(Mark Ruffalo), Mary (Kirsten Dunst) e Patrick (Elijah Wood), assistentes do Dr. Howard Mierzwiak na empresa "Lacuna Inc.", passam a noite com Joel para "passar uma borracha" em Clementine.

E é nesse momento que as relações humanas são discutidas. Ao ver que tudo aquilo que viveu seria apagado, Joel já não tem mais certeza de que é isso que realmente quer. Tanto que começa uma divertida e surreal "caça" a suas lembranças. Um jogo de esconde-esconde entre ele e o Dr. Mierzwiak.
Mas, não seríamos assim mesmo todos nós, seres humanos que acordam com bafo e mau humor?Se brigamos com nosso "bem-amado", logo passamos a ser mal-amados querendo jogar todas as fotos no lixo (os mais dramáticos, as rasgariam). Mas se respirarmos, no segundo seguinte vamos nos lembrar de tantas risadas dadas ao pôr-do-sol, tantos suspiros e caras de bobos ao menor sinal de lembrança, e acabamos por guardar as fotos novamente, e sorrir, pensando que estamos vivos o bastante para sermos capazes de nos importar,de nos decepcionar e de recobrar as esperanças.
Joel entende que apesar de toda a desilusão, Clementine já fazia parte dele, e que se ele a apagasse, estaria apagando uma parte de si mesmo.Afinal, o que é o ser humano senão um reflexo e baú daquilo que viveu?!Daquilo a que foi, por vontade ou não, submetido?!Talvez pó e máquina.

Esse não é uma comédia-romântica de final feliz.
É um suspiro da criatividade que ainda nos é ofertada no cinema atual, entre tantas mocinhas, vilãs e seus pares de sapatos e namorados.É uma dádiva aos cérebros que ainda se alegram em praticar o exercício de pensar.

Talvez, quando acabar o filme, você fique como eu, olhando para os créditos, com a sensação de que alguma coisa na sua mente foi alterada.Ou então você vai desligar a tv e concluir que precisa de pelo menos mais uma ou duas vezes para entender o filme. Mas de uma coisa você pode ter certeza, sua mente nunca mais será a mesma depois do passeio dado em uma montanha russa kaufmaniana.


Informações técnicas:
http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/brilho-eterno/brilho-eterno.asp

6 comentários:

Drica disse...

Agora sei qual a frase do filme você anotou naquele guardanapo naquele dia bacana.

^_^

Luana disse...

eu simplesmente me encantei com esse filme. Desse jeito mesmo: olhando os créditos, e escutando a música, pensando em tudo o que o conteúdo do filme me truxe de bom. Vc escreveu mto bem sobre o filme! e penso exatamente igual. Parabéns!

Um Ser Urbano disse...

Assisti esse filme numa época muito conturbada da minha vida, confesso que se houvesse essa possibilidade, acho que na época eu me sujeitaria a ser "formatado" por culpa de certo alguém.
Beijão Menina Má...
Tiago Fx

Ethylliel disse...

Infelizmente, eu ainda não assisti ao filme. Mas, certamente, assim que minha Amada voltar da China eu irei vê-lo, com certeza absoluta.

Sabe... O engraçado é que eu vivo o lado bom da vida ao lado dela todos os dias, por mais que eu brinque e tudo - nela eu me sinto pleno.

Transliterado um trecho de uma de nossas trocas de e-mails:

"Quando saí do Brasil, sabia que sentiria saudades, mas nao imaginava que seria tanta!
Cada rosto que vejo, cada voz que ouço, cada cena que presencio, mais e mais me da vontade de correr para seus braços, de largar tudo e me acorrentar no aeroporto implorando para entrar no primeiro vôo com destino a São Paulo".

Jamais apagaría quaisquer lembranças de minha Amada.

Spadotto disse...

Um dos meus filmes preferidos. Um dos meus maiores desejos: apagar. Minha frase preferida durante o filme. Sim, eu tbm não sou um conceito. Mesmo todo mundo dizendo que sim. Um beijo. E boa sorte com a sua paz de espírito... e se ver a minha por ai, diz que eu tô até me virando sem ela! :P Saudade tbm de vc.

Dadah disse...

Noooooh
Muito bom, adoro esse filme =]