31 de outubro de 2006

Poemeto - Desilusões frias

"Foi naquele banquinho de jardim
que te imaginei meu
E voou como as vassouras
de minhas ascenstrais
O vento te trouxe como pluma
para sublimar meus toques vazios
Todos os meus sonhos em céu
foram parar no teu olhar
Teus braços lembram-me
as orquídeas cultivadas
entre as lágrimas que plantei
no jardim de minhas
estrelas tortas
Beija eu
com os olhos da saudade
guardada na sombra
que tua alma oferta a minha
No fim da noite calma
que se ia
teus cristais selaram em mim
a noite negra de desilusões frias
mas minhas."
Patrícia Pirota

30 de outubro de 2006

Sétima Arte (Estrelando: Feira das Vaidades)

Feira das vaidades (Direção de Mira Nair)

"Feira das Vaidades" pode ser considerado um filme de opostos. De um lado, a nova queridinha de Hollywood, Reese Whinterspon, que deliciosamente conseguiu incorporar uma das grandes personagens da literatura britânica Rebbeca (Becky) Sharp. De outro, a diretora Mira Nair, bastante elogiada pela crítica cult por seus filmes anteriores.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de William Makepeace Thackeray, escrito no século XIX.
O livro já teve outras 6 adaptações para o cinema, e até o genial Kubrick já cogitou trabalhar com ele.
No enredo, Rebbeca (Becky) Sharp é uma mulher a frente de seu tempo. Filha de artistas(pai pintor e mãe cantora), Becky não teve uma vida muito confortável.E em busca de seus sonhos sociais, a personagem é capaz de lançar mão de todo seu charme, inteligência e poder de conquista.

A maioria das críticas existentes sobre o filme ressaltam o fato de a adaptação não ter sido fiel aos princípios utilizados por Thackeray no livro.Pudera!O livro tem mais de 900 páginas, e tranformá-lo em uma película de 140 minutos é um ato honroso de coragem.

Mira Nair utilizou a cultura indiana como pano de fundo colorido para o filme. Por se passar na velha europa, em que a hipocrisia era prato principal, e a frieza e o ambiente cinza europeu eram a sobremesa, "Feira das Vaidades", nos olhos de Nair ganharam um colorido oriental que faz com que o filme fique estonteante.

Ao conseguir se libertar da casa em que vivia(aqui há alguns traços da conhecida gata borralheira), Becky começa sua luta por um lugar colorido na cinzenta sociedade britânica. Consegue então, um emprego como governanta na casa da família Crawley, que tem como chefe o estabanado Sir Pitt Crawley (Bob Hoskins).

O roteiro do filme por vezes se mostra apressado, deixando de explorar algumas minúcias que seriam muito bem vindas.
Mas a produção é compensadora. O cenário, os costumes, a fotografia, fazem com que "Feira das Vaidades" seja uma pintura cinematográfica.

Becky Sharp não é apenas uma heroína pobretona que quer fazer parte da alta sociedade. Ela é uma mulher autosuficiente. Tanto quando precisa conseguir dinheiro para sustentar o marido Rawdon (James Purefoy), jogador inveterado, tanto quando precisa conquistar os olhares das enfadonhas e insalúbres senhoras da nobreza.

Embora sintamos falta de determinadas continuações no filme, principalmente aqueles que já leram o livro, há que se reconhecer que Nair fez um bom trabalho.
A "Becky" de Nair não é uma simples vilãzinha que passa por tudo e por todos para alcançar seus anseios. Mas sim um exemplo de mulher que desafinava da sociedade daquela época, e que pode facilmente ser comparada com as mulheres da nossa. Fortes, inteligentes e sempre a busca de seus desejos.

Assista.Ao menos para ficar embasbacado com a beleza que só a vaidade é capaz de produzir em nossas mentes.

Informações técnicas:
http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/vanity-fair/vanity-fair.asp

18 de outubro de 2006

Sétima Arte (Estrelando: Brilho eterno de uma mente sem lembranças)


Brilho eterno de uma mente sem lembranças

"Muitos caras acham que eu sou um conceito, ou que eu os completo, ou que vou dar vida a eles. Mas sou só uma garota ferrada procurando pela minha paz de espírito". (Clementine em diálogo com Joel)

Premiado com o oscar de melhor roteiro original, Charlie Kaufman já seria um ótimo e singular motivo para assistir o filme. Responsável pelos roteiros de filmes inteligentes e controversos como "Adaptação" e "Quero ser John Malcovick", Kaufman é um roterista fora dos padrões.Muitos diriam insano. Outros(aqueles que sempre preferem ver finais felizes e a sequência nascer-crescer-morrer) exclamariam o velho e trágico "sem pé nem cabeça". Eu prefiro deixar como opinião as retiscências que ele sempre deixa em minha mente.
Um dos melhores roteiristas da última geração, poderíamos dizer que seu maior e melhor parque de diversão é a mente humana. Em "Quero ser John Malcovick", Charlie brincou com a teoria de "eu é um outro", há muito profetizada por Rimbaud. Em "Brilho Eterno" ele joga com o poder que nossas lembranças têm de comandar e transformar nossa vida.

Em um enredo não-linear, Clementine(Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey)são um casal típico. A já conhecida lenda dos "opostos que se atraem".
Mas em seu atrair, o casal acabou por distanciar-se a tal ponto que apenas uma limpeza geral no cérebro seria capaz de apagar "as pedras no caminho" que ambos deixaram um para o outro.
E é exatamente isso que a impulsiva Clementine resolve fazer. Ela procura o Dr. Howard Mierzwiak(Tom Wilkinson), cuja clínica é responsável por "apagar" as lembranças que já não são mais agradáveis e queridas.
Preciso abrir aqui um espaço para falar da atuação de Kate Winslet. Não é só o fato de ela ter sido indicada ao prêmio de melhor atriz que faz com que seja necessário abrir um parênteses para ela. Mas o fato de ela ter superado todos os meus preconceitos. Sim!Eu não gosto dela enquanto atriz, mas em "Brilho eterno" fui obrigada a aceitar que não haveria outra pessoa tão boa quanto para o papel. Winslet, de fato, assumiu a personalidade de Clementine. Uma garota tão cheia de vida, tão cheia de cor (afinal a personagem muda a cor do cabelo 4 vezes!), tão cheia de promessas, mas que no fundo é apenas mais uma alma querendo encontrar outra que a complete sem a excluir.
O brilho nos olhos de Winslet é o mesmo que podemos ver em tantas outras mulheres a busca de todo mundo e de si mesmas ao mesmo tempo.Uma lembrança nas multidões.

Por falar em surpresas, Jim Carrey está irreconhecível!
Sou fadada a admitir que ele também varreu meu preconceito com relação a ele pra debaixo do tapete. Nunca imaginei que ele pudesse fazer um papel tão sóbrio. Tão real. Tão...pouco exagerado!
Joel é um cara normal, até demais. Tão sem surpresas, sem arroubos de emoções, que é difícil imaginar que Carrey conseguiria fazer com que isso fosse realmente real. Mas é.Tão insanamente como apenas um roteiro de Kaufman poderia conceber.

Depois de descobrir que Clementine o havia "deletado" de suas memórias, Joel decidi que fará o mesmo, afinal, porque diabos apenas ela teria o prazer da consciência tranquila ao dormir?!
E nesse mundo de ilusões, Stan(Mark Ruffalo), Mary (Kirsten Dunst) e Patrick (Elijah Wood), assistentes do Dr. Howard Mierzwiak na empresa "Lacuna Inc.", passam a noite com Joel para "passar uma borracha" em Clementine.

E é nesse momento que as relações humanas são discutidas. Ao ver que tudo aquilo que viveu seria apagado, Joel já não tem mais certeza de que é isso que realmente quer. Tanto que começa uma divertida e surreal "caça" a suas lembranças. Um jogo de esconde-esconde entre ele e o Dr. Mierzwiak.
Mas, não seríamos assim mesmo todos nós, seres humanos que acordam com bafo e mau humor?Se brigamos com nosso "bem-amado", logo passamos a ser mal-amados querendo jogar todas as fotos no lixo (os mais dramáticos, as rasgariam). Mas se respirarmos, no segundo seguinte vamos nos lembrar de tantas risadas dadas ao pôr-do-sol, tantos suspiros e caras de bobos ao menor sinal de lembrança, e acabamos por guardar as fotos novamente, e sorrir, pensando que estamos vivos o bastante para sermos capazes de nos importar,de nos decepcionar e de recobrar as esperanças.
Joel entende que apesar de toda a desilusão, Clementine já fazia parte dele, e que se ele a apagasse, estaria apagando uma parte de si mesmo.Afinal, o que é o ser humano senão um reflexo e baú daquilo que viveu?!Daquilo a que foi, por vontade ou não, submetido?!Talvez pó e máquina.

Esse não é uma comédia-romântica de final feliz.
É um suspiro da criatividade que ainda nos é ofertada no cinema atual, entre tantas mocinhas, vilãs e seus pares de sapatos e namorados.É uma dádiva aos cérebros que ainda se alegram em praticar o exercício de pensar.

Talvez, quando acabar o filme, você fique como eu, olhando para os créditos, com a sensação de que alguma coisa na sua mente foi alterada.Ou então você vai desligar a tv e concluir que precisa de pelo menos mais uma ou duas vezes para entender o filme. Mas de uma coisa você pode ter certeza, sua mente nunca mais será a mesma depois do passeio dado em uma montanha russa kaufmaniana.


Informações técnicas:
http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/brilho-eterno/brilho-eterno.asp

6 de outubro de 2006

Desilusões (Poemeto da época de meus 15 anos)

"A hora teima em não passar enquanto ainda estou juntando as migalhas que você me deixou.
Parece que todo o colorido dos meus dias está se esvaindo em palavras e cinza e pó.
Juro que não sei mais tentar entender, até porque isso não faria diferença pra você.
Posso até buscar nas árvores aquele coração que um dia a gente desenhou.
Posso até sentar num banquinho e esperar seu amor voltar.
Mas não quero insistir em tantos sonhos.
Prefiro andar pelas calçadas, sujas de tristeza e desassossego.
Resolvo correr pela chuva que lava meus ódios esquecidos.
Enquanto isso você deve estar sentindo que não faço falta.
Pensando que talvez tenha sido melhor, que seu delete tenha caído sobre minha lembrança.
Não quero mais ouvir sua voz doce,seu cheiro terno e suas mãos sobre meus cabelos.
Vou buscar a paz que talvez eu tenha esquecido num canto de mim.
Entre notas de silêncio e dor, num lugar estranho deixado por alguém que eu era.
Antes de você chegar.
E destruir todos os castelos, e sequestrar todas as princesas.
E me deixar continuar a dormir."

Patrícia Pirota - "Antiguidades"

2 de outubro de 2006

Poemeto - A ponto

"Não lembro do dia
em que você me disse que já não era mais
Insano a ponto de acompanhar meus erros.
Escravo a ponto de seguir meus passos.
Amante a ponto de beijar meus sonhos.
Senhor a ponto de mandar em meus desejos.
Amigo a ponto de me levar pra brincar.
Você não mais se lembra do dia que eu disse que era
Sorrisos a ponto de fazer-te sonhar.
Menina a ponto de fazer-te crer.
Senhora a ponto de mudar teus caminhos.
Demente a ponto de molhar teus jardins.
Cruel a ponto de dizer-te adeus.
Não mais nos lembramos do quanto fomos
Sozinhos a ponto de não termos sombras.
Tristes a ponto de chorar no escuro.
Infames a ponto de despedaçar nossas palavras.
Vivos o bastante para abrirmos os olhos.
Apenas vivemos o que nos restou
Uma não lembrança daquilo que era
mas que apenas se guarda no espaço das esquecidões."
Patrícia Pirota out/2006