4 de setembro de 2006

Sétima Arte (Estrelando: Meninos não choram)


Meninos não choram (Direção: Kimberly Peirce)
Leia ouvindo :Boys don't cry(The Cure)

Transgressor.Doído.Magicamente doído.
Para muitos, o que há de melhor no filme é a atuação de Hillary Swank, que aliás, lhe rendeu o oscar de melhor atriz no ano de lançamento do filme(1999).
Para outros, o que há de mais admirável é a forma como foi abordada a temática da insólita indecisão da personagem.
Para mim o que mais merece atenção é a combinação de uma atuação magistral de Hillary com um roteiro aparentemente ignoto, mas, que assim como um vento frio de outono, desperta o frio naqueles que o sabem existente.

O filme se passa em uma cidadezinha dos Estados Unidos, onde a cultura rural é predominante. Por esse fato podemos concluir que a mentalidade das pessoas que lá moram não é das mais abertas a sugestões.
Teena Brandon não é apenas uma garota com curiosidade sobre sua sexualidade.Mas também uma personalidade ambígua e dilacerada.
Convenhamos.Não deve ser muito confortável uma garota acordar um dia e dizer para o espelho: "Hey!Eu quero ter um pênis e beijar mulheres!".
E o que mais me encanta na personagem é que ela não é um esteriótipo, mas sim uma montagem singular. Tão singular a ponto de me fazer chorar ao ver que suas ilusões não residiam apenas em não ter seios ou dormir com Lana. Mas em conhecer a si mesma.Em aceitar um desejo que lhe era estranho, mas deliciosamente difícil de desistir.

A violência expressa no filme por muitas vezes delicia.
Sim!O ser humano gosta de violência.Não a violência plasticamente grotesca.Mas a violência que expurga seus defeitos, tal qual o teatro grego.

Brendon não é um "travesti", tampouco uma "sapatão".
É apenas a personificação da resistência humana aos valores que lhe são impostos.

Você pode assistir o filme pela ótica do "é uma história sobre uma lésbica como outra qualquer", e sair da sala dizendo que não entendeu, porque é tudo sem pé nem cabeça.O que acredito ser uma deplorável perda de tempo.
Ou você pode assisti-lo pela ótica do "é uma história em que as pessoas não sabem aceitar o que não entendem". E continuar na sala enquanto as letrinhas do final estão passando.Pensando naquele dia que você queria ter dito sim, mas ficou com medo de se olhar no espelho depois.

"Meninos não choram" não é um filme sobre sexo e violência gratuita.
É um filme sobre valores. Que podem ou não serem quebrados. Mas onde o que realmente importa é a consciência de que eles existem.E que ficarão te incomodando, até o dia em que você decidir jogá-los na parede, colocar-lhes o dedo na cara e dizer, com lágrimas nos olhos, que você não é parte deles.
Depois, então, sentar num boteco qualquer, e lembrar dos dias em que o espelho lhe sorria quando você dizia que não sabia o que iria ser quando crescesse.

Nenhum comentário: