19 de setembro de 2006

Vá ler um livro: Ovelhas Negras - Caio Fernando Abreu

Ovelhas Negras - Caio Fernando Abreu

"Remexendo, e com alergia ao pó, de dezenas em pastas em frangalhos, nunca tive tão clara certeza de que criar é literalmente arrancar com esforço bruto algo informe do Kaos. Confesso que ambos me seduzem, o Kaos e o in ou disforme. Afinal, como Rita Lee, sempre dediquei um carinho todo especial pelas mais negras das ovelhas".

Assim Caio termina a introdução de seu livro "Ovelhas Negras", compilado em 1995, com contos que vão desde 1962 até 1995, um ano antes da morte do escritor.
Segundo Caio, o livro é uma espécie de "(...) autobiografia ficcional, uma seleta de textos que acabaram ficando de fora de livros individuais. Alguns, proibidos pela censura militarista; outros, por mim mesmo, que os condenei por obscenos, cruéis, jovens, herméticos, etc. Eram e são textos marginais, bastardos, deserdados. Ervas daninhas, talvez(...)".

Caio Fernando Abreu é, sem dúvida, um dos escritores mais contundentes e apaixonantes da sua geração.
Seus contos são poesia cotidiana, recheada do fel que é sorvido pela ironia humana.

Os contos de Caio são pequenos pedaços de uma colcha de retalhos. Juntos têm uma força inimaginável.
Os deste livro em especial são viscerais. Um verdadeiro tiro no peito. Daqueles que te fazem morrer bem devagarinho, lembrando de todos os momentos em que você queria ter vivido, mas se escondeu em sua máscara de cordeirinho.

"Parece incrível se estar vivo quando não se acredita em mais nada".O sentimento de perda nos livros desse autor sempre são profundos e doidamente presentes, e em "Ovelhas Negras" eles ganham um reforço especial. São esboços, de pensamentos talvez vãos, sujos pelas impurezas do não-branco das cidades.

Esses textos tiveram que ser deixados na gaveta de Caio por alguns bons anos, para que ficassem protegidos do lobo mau da crítica e incompreensão daqueles que não se bastam com um sorriso ao pôr-do-sol.

Embora seja deveras significativo, Caio ainda é desconhecido pela maioria. Apenas alguns relegados estão acostumados com suas palavras de aço e pluma.
Os textos de "Ovelhas Negras" são o contrasenso, o marginalismo, o nonsense da literatura de Caio.

Esses dias em uma conversa sobre literatura, uma amiga disse que os escritores de que mais gostava eram aqueles que escreveram o que ela desejaria, com suas mais intrínsecas forças, ter escrito. E ambas concordamos que Caio é assim.

Todas as suas palavras ferem nossa alma, lembrando-nos que todos os dias são cinzentos se não olharmos pelo caleidoscópio da ilusão de ser.Vivo, lúcido, inconseqüente, imoral...humano.

Leia, e depois prepare-se para nunca mais deixar de lembrar dele em seus grandes e pequenos momentos.
Onde as negras ovelhas não são as renegadas, mas as bem-vindas.

Patrícia Pirota setembro/2006

15 de setembro de 2006

Sétima Arte (Estrelando: Os sonhadores)

Os sonhadores (Direção de Bernardo Bertolucci)

O nome de Bertolucci já seria o suficiente pra afirmar que este é um ótimo filme.Responsável pela obra-prima "O último tango em paris" (1972), Bernardo é um diretor fascinante.
Em "Os Sonhadores", seu amor e dedicação à sétima arte são visíveis e apaixonantes.
O tema central do filme é o próprio cinema, uma metalinguagem digna de admiração. O filme se passa no ano de 1968, na França. Uma época em que a revolução estudantil atingia seu auge, e onde os valores sociais estavam sendo postos à prova e revigorados.
Mas não é só do cinema, respirado a cada fotograma, que se compõe o filme. A paixão humana, a política e as discussões intelectuais também fazem parte desse jogo de advinhações.
Há quem diga que o filme é apenas um "tango" jovem e despreparado. Outros afirmam ser "Os sonhadores" pornografia juvenil.
Eu me deleito com a forma passional com que Bertolucci conseguiu mostrar os desejos e as aspirações humanas.

Matthew (Michael Pitt) poderia ser visto como apenas mais um garoto americano que vai ter suas bases intelectuais na acalamada Paris. Um tanto quanto ingênuo e apolítico, Matthew é apaixonado por cinema, e frequenta com bastante fervor a Cinemateca Francesa. E é lá, numa das cenas mais lasticamente belas do filme, que ele conhece Isabelle(Eva Green). (Tenho que abrir um grande parenteses para falar da atuação dessa menina. Eva Green é dona de uma beleza grega. Diante das câmeras, suas expressões assumem dimensões inimagináveis. Seu olhar é tão sensual quanto sua paixão pelo cinema.Com certeza, uma das novas boas promessas para o cinema atual.)
Em meio a toda a polvorosa em que se encontrava a Cinemateca, afinal, o filme tem início durante os protestos pela expulsão de Henri Langlois do comando da Cinemateca Francesa que este mesmo fundou, pelo recém-instituido Ministro da Cultura do governo De Gaulle, Andre Malraux, Matthew, Isabelle e Theo(Louis Garrel) se encontram uns nos outros.
Isabelle e Theo são irmãos, que alimentam uma incestuosidade abstrata. Por muitos, a forma com que Bertolucci pintou o relacionamento dos irmãos foi chocante, mas, no filme eles são como Apolo e Diana: metades complementares.
Convidado a passar uma temporada na casa dos irmãos, Matthew é introduzido num mundo a parte, uma ilha dos desejos. Lá, eles têm conversas acaloradas sobre literatura, artes e política e compartilham seus desejos tanto do corpo quanto da alma.

Uma das grandes alusões de Bertolucci a seu amor pelo cinema é a brincadeira feita pelas personagens, "qual é o filme?". Um deles "encena" uma pequena cena e o outro tem que advinhar de qual filme ela faz parte. Nesses momentos, podemos ver cenas de clássicos, sendo rememoradas por Bernardo.

É incrível como Bertolucci consegue poetizar o sexo. Mesmo sendo não-convencional o propósito, a maneira como foi retratado é passional e bela. Quando nos deparamos com cenas que, na mão de outros diretores poderiam ser apenas sexo animal, também encontramos identificaão com nossos próprios desejos. Não só os desejos da carne, mas, os mais bem tratados por Bertolucci, os desejos da alma.

Assista. Mas não vá para a frente da tv com a alma suja de pensamentos vãos. Nem com a idéia de que é um filme sobre sexo barato.
Dispa-se de seus preconceitos tolos, afinal,mais dia ou todo dia, todos somos "vouyeres" da vida.

Informações Técnicas: http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/dreamers/dreamers.htm

Patrícia Pirota

12 de setembro de 2006

"Poemeto para uma noite de saudade"

Poemeto para uma noite de saudade
Olho para o céu que vem baixinho
com seus olhos cor-de-rosa
me lembrar do meu amor...
Lembro do sorriso doce,
da risada calma
e de todo o bem que um dia me fez.
Uma nuvem de tristeza passa agora
enquanto lembro do seu "nunca mais".
Quantos dias vou ter que esperar
pra você entender quem eu sou
Quantas vezes vou ter que pedir
pra você estar onde estou
Ontem ouvi aquela música
que você dizia ser a minha cara
E que eu nunca entendia o porquê.
Agora eu sei,
vejo que talvez errei
em acreditar no eu,
que você fazia pra mim.
Quantos dias vou ter que esperar
pra você entender quem eu sou
Quantas vezes vou ter que pedir
pra você estar onde estou.
Não vou mais sentar naquele banco,
lendo Dostoiévski pra esperar
que você venha e me diga
o que eu não quero ver,
que eu não fui feita pra você...
Quantos dias vou ter que esperar
pra você entender quem eu sou
Quantas vezes vou ter que pedir
pra você estar onde estou.

Patrícia Pirota 2006

4 de setembro de 2006

Sétima Arte (Estrelando: Meninos não choram)


Meninos não choram (Direção: Kimberly Peirce)
Leia ouvindo :Boys don't cry(The Cure)

Transgressor.Doído.Magicamente doído.
Para muitos, o que há de melhor no filme é a atuação de Hillary Swank, que aliás, lhe rendeu o oscar de melhor atriz no ano de lançamento do filme(1999).
Para outros, o que há de mais admirável é a forma como foi abordada a temática da insólita indecisão da personagem.
Para mim o que mais merece atenção é a combinação de uma atuação magistral de Hillary com um roteiro aparentemente ignoto, mas, que assim como um vento frio de outono, desperta o frio naqueles que o sabem existente.

O filme se passa em uma cidadezinha dos Estados Unidos, onde a cultura rural é predominante. Por esse fato podemos concluir que a mentalidade das pessoas que lá moram não é das mais abertas a sugestões.
Teena Brandon não é apenas uma garota com curiosidade sobre sua sexualidade.Mas também uma personalidade ambígua e dilacerada.
Convenhamos.Não deve ser muito confortável uma garota acordar um dia e dizer para o espelho: "Hey!Eu quero ter um pênis e beijar mulheres!".
E o que mais me encanta na personagem é que ela não é um esteriótipo, mas sim uma montagem singular. Tão singular a ponto de me fazer chorar ao ver que suas ilusões não residiam apenas em não ter seios ou dormir com Lana. Mas em conhecer a si mesma.Em aceitar um desejo que lhe era estranho, mas deliciosamente difícil de desistir.

A violência expressa no filme por muitas vezes delicia.
Sim!O ser humano gosta de violência.Não a violência plasticamente grotesca.Mas a violência que expurga seus defeitos, tal qual o teatro grego.

Brendon não é um "travesti", tampouco uma "sapatão".
É apenas a personificação da resistência humana aos valores que lhe são impostos.

Você pode assistir o filme pela ótica do "é uma história sobre uma lésbica como outra qualquer", e sair da sala dizendo que não entendeu, porque é tudo sem pé nem cabeça.O que acredito ser uma deplorável perda de tempo.
Ou você pode assisti-lo pela ótica do "é uma história em que as pessoas não sabem aceitar o que não entendem". E continuar na sala enquanto as letrinhas do final estão passando.Pensando naquele dia que você queria ter dito sim, mas ficou com medo de se olhar no espelho depois.

"Meninos não choram" não é um filme sobre sexo e violência gratuita.
É um filme sobre valores. Que podem ou não serem quebrados. Mas onde o que realmente importa é a consciência de que eles existem.E que ficarão te incomodando, até o dia em que você decidir jogá-los na parede, colocar-lhes o dedo na cara e dizer, com lágrimas nos olhos, que você não é parte deles.
Depois, então, sentar num boteco qualquer, e lembrar dos dias em que o espelho lhe sorria quando você dizia que não sabia o que iria ser quando crescesse.