30 de agosto de 2006

Vá ler um livro: Noites Brancas - Dostoiévski


Do guia: DESLIGUE A NET E VÁ LER UM LIVRO!
NOITES BRANCAS - Fiodór Dostoiévski

Já falei por aqui sobre Dostoiévski...
E a maioria das pessoas que me conhecem sabe da minha enorme admiração por esse escritor...
Talvez maior que a admiração por ele, seja a alquimia que suas obras causam em mim...
Na primeira vez que li "Noites Brancas", fiquei por algum tempo tentando ver onde estava o gênio que eu conheci em "Memórias do subsolo"...
Porque o que mais me encanta,ou aprisiona em Dostoiévski é seu tato para desvendar a alma humana.Ou seria desnudar?A tal ponto que até aquelas cicatrizes que você jurou que não mais olharia fiquem abertas, esperando o dedo que virá cutucar a ferida.
Em "Noites Brancas", Fiodór retrata a solidão.Uma solidão tão doída que não acompanha nem o próprio "sentidor"...
O personagem não se sente bem em sua própria sombra.
Paira um ar de tédio, mas o que mais incomoda é o conhecer apenas pela "terceira pessoa", e não pelo privilégio do onipresente...
Quando terminei de ler, ficou uma lágrima amarga no canto dos sonhos.
Talvez pela vontade de ter tido coragem tanta quanto a da personagem, de entregar-se com todas as veias a uma ilusão...

O título do livro se deve ao fenômeno de que, em S. Petersburgo(cidade onde está situada a história, atual Leningrado), no verão, o sol se põe às 9 da noite e volta a surgir à meia-noite.

E é assim o enredo...
Que começa numa noite em que o sol já havia se posto, "tinha a impressão de que eu, já tão só, havia de ver-me abandonado de toda a gente, que todos se afastaram de mim"...
E termina com a volta da luz, "Havia um céu tão profundo e tão claro que, ao vê-lo, só se podia indagar, quase sem querer, se era verdade que existissem, sob um céu semelhante, criaturas más e tétricas"...

Segundo o próprio autor, esse é o romance de um sonhador.
Mas em Fiodór,todos os sonhos nascem da escuridão, e se vão esconder em algum canto amargo da alma humana.

29 de agosto de 2006

Poemeto - Não-ser

"Em minha mente
plena de insanidades
reza um pedido de pôr-do-sol
como um dragão
que procura proteções
Tento não discutir com minhas asas
mas minha vontade de luar
invade meus desejos insólitos
Quero o desacostumar das sombras
e brincar com os botões dos sonhos do mundo
Apenas para permitir-me
o último suspiro
antes da vinda do não-ser."
Patrícia Pirota

15 de agosto de 2006

Poemeto - Modernidades

"Jacarés apenas mofam girassóis.
Tucanos apenas encerram carvalhos.
Quero o abrigo cinza da fumaça,
o estridente tráfego da evolução.
Não quero saudar extinções,
ou cantar raridades.
Prefiro a Coke, Warhol, Monroe...
Não quero o regionalismo inútil
que enterra meu eu,
não o lírico,
mas aquele, cosmopolita,
que me dá o mundo
segurado nas mãos pelo signo
que revira na tumba
cada vez que um peixe pantaneiro
se esfrega em sua língua."
Patrícia Pirota

10 de agosto de 2006

""Era uma vez...uma professora e seus trinta alunos"

Nossa...Esse artigo é da época da faculdade...Mas eu tava fuçando umas coisas aqui e achei interessante...Enfim...Pode ser tão inútil qt os outros...Ou não...Decida vc...

Era uma vez...uma professora e seus trinta alunos

Você que está passando seus olhos por estas letras, mesmo que por mero acaso, está praticando um ato de liberdade essencial ao ser humano: o ato da leitura.
Muitos de nós(pessoas normais que acordam com bafo e mau humor) acreditam que leitura e literatura sejam cognatas (ah! quantos crimes foram cometidos em seu nome, cognatos...). A essas pessoas, dedico minha incompreensão.
Literatura é um objeto de muitas leituras, assim como os esboços de Dali e o cimento de Nyemaier. Já a leitura é um sujeito, não objeto, capaz de abrir todas as portas.
É costumeiro em nossas casas educacionais a cena:
-Aluno: Odeio ler!
-Professora: Por quê?
-Aluno: Porque é chato!
-Professora: Mas...(muitas e muitas reticências)
A próxima cena já podemos prever: a professora senta em sua mesa e folheia o livro (não) didático e o aluno continua a rabiscar a mesa.
A leitura é um processo endógeno e exógeno simultâneo. O mundo nos presenteia com os signos e nós modelamos a linguagem.
A maioria de nossas brancas de neve reclamam que seus anões não lêem. Pudera!Elas não metamorfoseiam-se em livros para narrar aos anões as estorinhas do mundo (não) encantado.
Nossos alunos querem ouvir, para depois aprender a falar. Ora, não são assim nossos sentidos?
Chato mesmo é não ler a vida, com todas as suas cores!
Que nossos anões leiam as instruções de seus games para depois tropeçarem no caminho de Drummond. Que olhem suas revistaas de cunho aborrecente, para depois sentirem a ressaca oblíqua de Machado. Que respondam seus caderninhos com perguntas, para depois relatarem suas férias, mas sem adjuntos e subordinações, mas com suas bicicletas criando rodinhas nas páginas.
Nossas brancas de neve devem acordar, sem esperar o beijo do príncipe. E então, ler a história que o olhar de seus anões conta, pois são tantas as leituras que eles fazem!
Clarice profetizou que a vida ultrapassa todos os entendimentos, certa de que as leituras seriam tantas quanto fossem os olhos.
"Decifra-me ou devoro-te". Todas as brancas de neve devem decifrar seus anões, ou estes as engolirão, num ato antropófago, com ou sem final feliz.

Patrícia Pirota junho/2004

9 de agosto de 2006

Artigo Inútil: Castelo de Areia

Castelo de Areia(artigo inútil)

(Leia ouvindo "Apesar de você" do Chico Buarque)
(Ps1: se você não gosta de MPB, ouça "Ticket to ride" dos Beatles)
(Ps2: se você não gosta nem de MPB nem de Beatles não leia! Porque boa gente você não deve ser...)

Hoje é sábado(pra mim né...porque pra você...vai saber...). Depois de ter dormido o dia todo (afinal, "o sono é o domingo do pensamento"), fui arrumar meu quarto(porque estar acordado é a segunda-feira da vida). No meio de livros, cds, roupas, provas pra corrigir, All Stars sujos e contas do cartão de crédito(maldito seja quem inventou esse treco!mentira...) encontrei um guardanapinho daqueles de cafeteria(pois então...eu tenho o hábito de, toda vez que vou a uma cafeteria, pegar um guardanapo e escrever a "frase da hora".Bobice minha...).
Era uma frase bem doída, do Caio F. Abreu(ah é!esqueci de dizer qual é..."Não que se sentisse triste, apenas não sentia mais nada.").Lembrei desse dia e parece que a vida me deu um puta soco no estômago.Era um fim de semana deveras nublado, pelo menos pros meus olhos, que ficaram um pouquinho umedecidos quando reli(tá bom!tá bom! eu assumo!chorei mesmo!!!).
Logo depois, peguei outro guardanapinho, com uma frase do Tom Zé, que amo("Na vida, quem perde o telhado ganha em troca as estrelas"), e lembrei o quanto eu estava feliz nesse dia. E olha que nem fazia muito tempo de diferença do outro...
Aí parei pra pensar (medo!sim...) em quanto nossa vida é efêmera(gosto mais dessa palavra que de "passageira"!passageira me lembra uma música do Capital que eu detesto!).
O ser humano tem uma capacidade absurda de esquecimento.Se hoje estamos tristes, como se fôssemos um castelo de areia a ser derrubado por uma onda, depois de uns goles de cerveja(ou de chocolate quente para os não cachaceiros), uma musiquinha, um cheirinho de incenso e uma presença amiga(mesmo que seja no msn ou no fone) já estamos sorrindo novamente.
Não que aquela tristeza tenha ido embora, mas ela se metamorfoseou.
Kafka, em seu livro "A metamorfose", transformou um cara comum em um inseto trash. Segundo ele, para representar "a própria humanidade: aflita, frágil, infeliz". O livro foi escrito em 1912, mas a idéia de Kafka ainda está presente nas nossas cacholinhas do século XXI.
Somos tão frágeis, que nossa opinião pode mudar a qualquer anúncio bem feito. Tão aflitos, que precisamos fazer milhares de coisas ao mesmo tempo agora, com o medo de nos esquecermos perdidos num canto da casa, ou de não termos sido tão bons quanto nossos sonhos de criança merecem. Basta perceber que, ao mesmo tempo, postamos em fóruns, conversamos no msn com,pelo menos, umas cinco pessoas, baixamos músicas, assistimos vídeos e falamos ao telefone. Aah!E ainda conseguimos respirar!Só pra mostrar o quanto a gente é foda!
Mas aí, depois que desligamos tudo o que nos conecta ao mundo exterior, e nos voltamos só pra essa maquininha que tem um bombeador de sangue que também nunca pára, vêm a tristeza.
Já dizia o poetinha, "tristeza não tem fim, felicidade sim...". Mas sempre há que se dar um jeito...
Uia!Acabei de achar outro gurdanapinho.Nele está uma das minhas frases-retrato, "Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz!".
É assim que eu vou levando...Brincando de pintar o nariz, sempre que trombo com uma coisa ruim. Sempre que meu castelo de areia é derrubado por uma onda, lembro que amanhã vai ser outro dia...E que apesar das pedras no caminho, o mundo é vasto demais, e a lua deveras comovente, pra que eu deixe de "palhaçar" com a vida.
Patrícia Pirota agosto/2006

6 de agosto de 2006

Como diria... (Drummond)

Poema de sete faces (Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

De Alguma poesia (1930)

4 de agosto de 2006

Poemeto - Presente para as cinzas

"Quantos verões passei
buscando a eternidade...
mas minhas asas
não voaram além do sol.
Procurei em cada brilho
de lágrimas dispersas
a cor de vidas quem não são minhas
...do mundo.
Quantos cadáveres
foram esquecidos
nas gavetas da desilusão,
e quantas notas caídas
entre a escuridão de luzes nuas...
Sou poeta
que guarda o amor para si
presenteando as cinzas."
Patrícia Pirota

3 de agosto de 2006

Poemeto - (In)Verdades

"Felicidade é o amor
quando cultivado entre as estrelas
Doce é o beijo
dado com os olhos
Sublime é a sinfonia
tocada com a alma
Claro é o céu
pintado em borboletas
Calma é a paz
guardada em cristais
Eterno é o tempo
onde residem minhas solidões."
Patrícia Pirota

2 de agosto de 2006

Poemeto - Desangústia

"Me escondo
no teu riso amarelo
Brinco
de matar tuas ilusões
Caço borboletas-amor
no escuro de tua íris
Quero um copo de desangústia
e um prato de coragem
para criar cores
que acabem com a palidez
de tuas palavras."
Patrícia Pirota